Professor de História ou Historiador? Vamos acabar com essa dúvida e garantir que ninguém encontre problemas nas questões de ensino!

 

12 de janeiro de 2018

 

Cursar História parece algo bem simples à primeira vista. Você passou seus quatro ou cinco anos curtindo a quadra da faculdade, o bosque, as festas, as amizades e ocasionalmente em um momento de distração até uma aula ou outra. Pegou o canudo, bateu aquela foto com a família orgulhosa e finalmente é um historiador!

Pera… Você é um historiador?

Não…

Mas podem te chamar de professor de História!

Pera…

Podem?

A presença em sala de aula é a única diferença? Os dois fazem a mesma coisa ou não? Os papéis de ambos para a sociedade (ou para a escola) são os mesmos?

Pois é. A primeira vista é fácil definir as diferentes funções do professor de História e do historiador, onde atuam e qual seu papel no mundo, mas quando as questões apertam sempre ficam algumas dúvidas. Vamos falar um pouco sobre as diferenças de ambos e garantir as corretas apresentações de cada um.

Há muito, muito tempo atrás…

 Cursar História parece algo bem simples à primeira vista

Fonte: <https://gartic.com.br/taustaus/desenho-jogo/1279074453>

 (Nem tanto tempo assim). Mas ao menos nos primeiros momentos da faculdade havia quase um consenso (entre os calouros) de que nós seríamos professores de História e não historiadores. A explicação era super lógica e simples: entramos em um curso de licenciatura em História.

Poderia ser assim mesmo: licenciatura = professor. Bacharel = historiador.

Mas não é bem assim que funciona, e aliás, “escrever” História e ensinar História também já não é uma distinção correta entre as funções dos dois. Hoje, um projeto de lei define claramente (nem tanto assim) quem é ou pode ser chamado de historiador, e claro, atribui à função de professor aqueles que de fato ensinam.

 Vamos lá:

Projeto de Lei 4699/2012

 

Fonte: <http://somosaredeestamosnarede.blogspot.com.br

Correndo desde 2012, em março de 2015 esse Projeto de Lei foi aprovado. Sem entrar na parte jurídica, que não é minha praia, esse carinha trata da regulamentação da profissão de historiador. Quem é, quem não é e quem pode ser.

Lembra da distinção bacharel/licenciado? Esse PL acabou com isso, segundo ele Art.3º o exercício da profissão historiador, em todo território nacional, é privativo dos portadores de:

I – diploma de curso superior em História, expedido por instituição regular de ensino;

II – diploma de curso superior em História, expedido por instituição estrangeira e revalidado no Brasil, de acordo com a legislação;

III – diploma de mestrado ou doutorado em História, expedido por instituição regular de ensino superior, ou por instituição estrangeira e revalidado no Brasil, de acordo com a legislação.”

 

Ele não apenas define legalmente como historiador toda pessoa formada em ensino superior em História como “exclui” da profissão historiador toda pessoa que mesmo com experiência em pesquisa, produção, publicação e tudo o mais que acompanha esse processo não tenha diploma superior na área.

Não vamos entrar em discussão sobre o certo ou errado (já ouvi opiniões bem distintas), mas levando ao pé da letra, o que diriam por exemplo Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior sobre isso? (Artes, Direito, Economia…). Não são historiadores? Polêmico…

E sobre a função? Mesmo sendo licenciado, basta produzir e não reproduzir? Segue um trechinho da lei:

Art. 4º São atribuições dos historiadores:

I – magistério da disciplina de História nos estabelecimentos e ensino fundamental, médio e superior;

II – organização de informações para publicações, exposições e eventos sobre temas de História;

III – planejamento, organização, implantação e direção de serviços de pesquisa histórica;

IV – assessoramento, organização, implantação e direção de serviços de documentação e informação histórica;

V – assessoramento voltado à avaliação e seleção de documentos, para fins de preservação;

VI – elaboração de pareceres, relatórios, planos, projetos, laudos, e trabalhos sobre temas históricos.

 É isso aí. Praticamente não importa o que você faça, se tiver o canudo (licenciatura ou bacharel, mestrado ou doutorado) você é um historiador. E claro, ensinando, também é um professor de história!

Você está fugindo do tema… –“

Eu sei, prometi uma coisa e vendi outra.

Mas calma! Essa primeira parte é importante para não termos dúvidas sobre o que somos, fomos ou seremos (particularmente eu me considero um professor e não historiador).

 Se legalmente está claro quem pode ser o que e as funções que quem deve desempenhar onde, agora vamos falar de verdade sobre os papeis dos historiadores/professores de história para a sociedade/escola.

O professor de História

 

Quem nunca se animou com aquelas aulas de História engraçadas e cativantes durante o nosso período escolar? Ou pior, teve um professor de História tão legal que se meteu a fazer faculdade de História pensando que ia ser um adulto tão legal quanto ele?

Sim, eu o culpo até hoje e guardarei rancor eternamente! 

Mas além de condenar inocentes estudantes a ingressar na aventura do ensino, qual o papel real deles para a formação dos alunos?

Toda a fala aqui acaba soando um pouco política ou papo de PCN. Mas não é fácil fugir disso. A função do professor de História hoje é tanto (ou mais) social quanto didática. O currículo faz com quem sigamos um conteúdo específico. Tudo bem até aí, a gente acrescenta, corta, pula, volta, planta bananeira e quando não somos engessados seguimos com o que importa. É legal que os alunos saibam algumas datas, alguns eventos e alguns nomes importantes. Mas é muito mais legal que eles saibam o porquê dessa importância.

(Ninguém disse que é fácil).

Isso não é feito passando informações para que os jovens acertem questões de múltipla escolha. Isso é feito quando o lado historiador encontra o professor dentro da sala de aula. Quando conseguimos trabalhar os conceitos pedidos no Currículo e que podem ser entendidos pelos alunos. O sujeito histórico, o agente de mudanças, indivíduos, grupos ou classes sociais. O entendimento do cotidiano e aquele link com o passado, a mudança que ocorreu e que ocorre porque alguém, alguns ou muitos assumem esse papel (do sujeito histórico) e iniciam as mudanças.

Aquele velho discurso sobre a educação ser a principal ferramenta de mudança está batidíssimo, e também está corretíssimo também. Nunca foi tão necessário. A nossa sociedade não anda nos seus melhores dias. Aquele exemplo que devia vir de cima, só vem como mau exemplo. Que aulas melhores que a de História para que os alunos se localizem? Qual o papel dele nessa sociedade? A qual grupo ele pertence? Existe diferenciação? Que relação há entre ele, sua comunidade, sua cidade, seu país? Ele é valorizado, reconhecido? Ele se vê representado? Se inspira nas pessoas certas?

Esse tipo de consciência crítica é moldada quando eles são instigados a pensar, mas pensar de verdade, escrever sobre, ler sobre, ouvir sobre, e não apenas assinalar uma resposta sobre. Os professores de exatas (por exemplo) também tem a função de criar um cidadão crítico, porém temos de reconhecer que é mais difícil fazê-lo entre funções e fórmulas do que entre discursos sociais ou textos históricos. É papel do professor de História não trabalhar com coisas antigas, mas tratar a História como ela é (ontem e muito, mas muito principalmente hoje). Buscar isso: um aluno crítico, capaz de se defender de preconceito, opressão ou exploração, capaz de identificar o injusto e fazer algo sobre isso é uma realização muito maior para um professor do que fazê-lo decorar a data da Independência do Brasil.

Como li em algum lugar (não me lembro mesmo). Buscamos criar um aluno livre, que se torne um cidadão livre e quem sabe, com alguma sorte e com muitos desses, tenhamos uma sociedade livre. Tornar os jovens em agentes de mudança (para a melhor) é parte do papel do professor de História.

E o historiador?

 

Fonte: <http://historiadorpensante.blogspot.com.br

 No Art.4º falamos sobre as funções do historiador. E não sobrou muito mesmo. Mas e o historiador dentro da sala de aula? É só o professor? Ali em cima um sábio e atraente homem =) falou que dentro da sala de aula ambos devem se encontrar. E como trabalharão juntos?

O professor deve ser o instigador, ok. Ao historiador junto dele cabe o lado técnico. É ele quem deve buscar a melhor informação e a melhor forma de passa-la. É o lado historiador que vai se especializar, atualizar, comparar e escolher o melhor material. Ser crítico e saber separar ou melhorar tudo o que “vem de cima” para que chegue da melhor forma para as salas. Cabe ao historiador pensar a História pronta que ele recebe e pensar se apenas repassa-la é o suficiente. Não tentar tornar o aluno em um historiador, mas ao menos mostra-lo o caminho para a construção do saber dele.

Fora da sala de aula, o papel é semelhante. Se o tempo de contar apenas a história dos grandes feitos e homens já passou, até a história do tio pipoqueiro da praça merece ser vista de forma real, sem distorções, compreendida e transmitida com o máximo de imparcialidade e legitimidade (o que nunca é fácil). Que mal pode haver em quando puder também tornar alguns adultos livres?

E quem concorda?

Confesso que apesar de ler os PCN, conhecer esse PL e vez ou outra tocar no assunto com colegas, nunca prestei atenção de fato na discussão que isso gerou. Encontrei muitos fóruns em que as discussões entre quem defende a separação ou não de quem é considerado historiador ficaram acaloradas.

Independente do documento que vai classifica-lo assim perante a lei, acho que podemos sim encontrar a prática do historiador fora dos documentos das instituições de ensino. Adultos livres… Ou algo parecido com isso.

E você? Concorda com essa divisão?

Acha que o professor e o historiador estão muito distantes, principalmente dentro da sala de aula?

Compartilhe sua opinião e boa sorte nas suas provas!

Tutor Matheus de Marchi.

Referências:

http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/TRABALHO-E-PREVIDENCIA/470458-CCJ-APROVA-PROJETO-QUE-REGULAMENTA-PROFISSAO-DE-HISTORIADOR.html
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=559424
http://www.eeh2010.anpuh-rs.org.br/resources/anais/9/1279222823_ARQUIVO_laisa_nogueira_ANPUH.pdf
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1038347
http://soprahistoriar.blogspot.com.br/2015/08/para-que-continuemos-na-luta-19-de.html>

12 de janeiro de 2018

 

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