LIBRAS a linguagem ainda distante na aprendizagem brasileira

Por Renan Costa 11 out 2018 - 8 min de leitura
8 min

A Língua Brasileira de Sinais LIBRAS e/ou a língua de sinais, ao longo dos anos, vem suscitando debates e embates acerca do seu uso, tanto na sociedade como na escola, embora muitos ainda desconheçam que ela constitua uma verdadeira linguagem.

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Para Marchesi, a falta de conhecimento acerca desta língua, a confiança numa metodologia oral e por ser considerada apenas como mímica, motivaram a cultura hegemônica ouvinte a estigmatizarem e condenarem o uso desta língua considerando-a imprópria na educação do surdo por ser prejudicial à aquisição da linguagem oral, bem como a sua integração na sociedade.

Com o avanço do tempo e das pesquisas linguísticas sobre a língua de sinais nos dias de hoje, ela já é reconhecida como uma língua. A língua de sinais é a língua natural dos surdos, mas para entender esta língua com suas características e peculiaridades faz-se necessário entender o conceito de língua e a sua importância na comunicação.

Segundo Ferreira, língua é o conjunto das palavras e expressões faladas ou escritas, usadas por um povo ou uma nação e o conjunto de regras da sua gramática. Diante desse conceito, analisa-se que a língua exerce um papel social, de compartilhamento de forma falada e escrita por pessoas de uma comunidade linguística. A maioria dos surdos, não falam, como então eles se comunicam com o mundo que o cercam?

Em resposta a esta pergunta Reily, defende que “quando a voz não pode ser usada, o gesto é uma opção natural para a constituição da linguagem”. Portanto, se não podemos falar, temos que buscar meios adequados que supram as funcionalidades da língua oral. Relacionando as línguas orais com as línguas de sinais, temos a fala e o sinal.

Segundo Ferreira, a fala é a ação ou faculdade de falar, e sinal é signo convencionado que serve para transmitir informação. Verificando o conceito de sinal e pensando na língua sinalizada, percebe-se que quando o gesto representa um sinal convencional e possui contexto linguístico com significado, enquadra-se então na definição de língua, servindo, portanto, para exercer comunicação, interação, substituindo assim, a fala.

É cientificamente comprovado que o ser humano possui dois sistemas para a produção e reconhecimento da linguagem: o sistema sensorial faz uso da anatomia visual, auditiva e vocal, característica das línguas orais; e o sistema motor que faz uso da anatomia visual, da anatomia da mão e do braço, caracterizando as línguas de sinais. Essa é considerada a língua natural do surdo e é imprescindível no seu desenvolvimento psicossocial e intelectual.

Na aquisição da linguagem, os surdos utilizam o sistema motor porque apresentam o sistema sensorial (audição) seriamente prejudicado. Assim, o sinal é a língua do surdo e, no aspecto funcional, é igual à fala para os ouvintes, pois possui sintaxe, gramática e semântica completas que permitem desenvolver a expressão de emoção e articulação de ideias.

Segundo Quadros, a língua de sinais é uma língua espacial visual, pois utiliza a visão para captar as mensagens e os movimentos, principalmente das mãos, para transmiti-la. Distinguem-se das línguas orais pela utilização do canal comunicativo, enquanto as línguas orais utilizam canal oral-auditivo, as línguas de sinais utilizam canal gestual-visual.

Esta forma de linguagem é rica, completa, coexiste com as línguas orais, mas é independente e possui estrutura gramatical própria e complexa, com regras fonológicas, morfológicas, semânticas, sintáticas e pragmáticas. É lógica e serve para atingir todos os objetivos de forma rápida e eficiente na exposição de necessidades, sentimentos, desejos, servindo plenamente para alimentar os processos mentais.

Marchesi afirma que “A língua de sinais é uma linguagem autêntica, com uma estrutura gramatical própria e com possibilidades de expressão em qualquer nível de abstração”. Por ser tão completa quanto à língua oral é adequada, pode e deve ser utilizada no processo ensino e aprendizagem, exercendo o desenvolvimento, a comunicação e a educação dos alunos marcados por uma falta, a audição.

A LIBRAS e a Lei nº 10.436

A Língua Brasileira de Sinais, também conhecida como LIBRAS e/ou a língua de sinais, ao longo dos anos, vem suscitando debates e embates acerca do seu uso, tanto na sociedade como na escola, embora muitos ainda desconheçam que ela constitua uma verdadeira linguagem.

http://amazonasatual.com.br/comissao-aprova-uso-de-interprete-de-libras-em-orgaos-publicos/

 As línguas de sinais não são universais, ou seja, cada país apresenta sua própria língua de sinais, como exemplo a BSL (Língua de Sinais Britânica), a ASL (Língua de Sinais Americana) e a LIBRAS (Língua de Sinais Brasileira). Seus sistemas linguísticos apresentam-se independentes das línguas orais, sendo abstratos de regras gramaticais e se classificando como línguas espaço-visuais.

No Brasil a Língua de Sinais ganhou espaço a partir de 1857 quando Eduard Huet, um francês que ficou surdo aos doze anos veio ao país a convite de D. Pedro II para fundar a primeira escola para meninos surdos primeiramente chamada Imperial Instituto de Surdos Mudos, atual INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos).

A partir da fundação da escola, os surdos brasileiros puderam então criar a Língua Brasileira de Sinais, que se originou da Língua de Sinais Francesa e das formas de comunicação já utilizadas pelos surdos de vários locais do país.

É importante ressaltar que nem sempre houve a aceitação pelo uso da Língua de Sinais, que muitas foram às tentativas em torno da discussão sobre como educar os surdos, pois alguns se mostravam favoráveis ao método oralista (uso da fala).

No ano de 1880 em um Congresso Mundial de Professores Surdos ocorrido em Milão na Itália decidiu-se que todos os surdos deveriam ser educados pelo método oral puro, ou seja, sem o uso de qualquer sinal.

Somente no ano de 1896 a pedido do Governo brasileiro, A.J. de Moura e Silva, que atuava como professor de surdos no INES foi ao Instituto Francês de Surdos com a missão de avaliar esta decisão e chegou à conclusão de que o método oralista não era eficiente para todos os surdos.

Se fossemos nos aprofundar no estudo da história da Língua de Sinais teríamos que citar vários outros nomes importantes no processo de implantação e reconhecimento da mesma e detalhar acontecimentos, datas e discussões em torno da polêmica da Educação dos surdos.

Portanto quero que você saiba que assim como o povo ouvinte tem suas lutas e glórias em busca de liberdade, de uma sociedade democrática onde se possa viver bem e fazer uso de seus direitos, o povo surdo, que sempre esteve presente nesta mesma trajetória histórica também, pois é parte da sociedade e, além disso, ainda teve que lutar uma luta desleal e quase solitária.

Sob o domínio de uma cultura da maioria (cultura ouvinte) que sempre tomou as decisões e dificilmente se colocou na posição do surdo para saber o que de fato era melhor para ele, o sujeito surdo conviveu com o preconceito, o isolamento social e a falta de oportunidades por não poder expressar de fato sua opinião.

Em nosso país, a língua de sinais adquiriu status linguístico de direito e de fato em 2002, com a sanção da Lei nº. 10.436, que a reconhece legalmente como forma de expressão, com sistema linguístico visual-motor próprio para exercer comunicação.

Diante das análises acerca da língua de sinais, que possamos compreender os conteúdos abordados no que tange à sua importância na educação dos surdos nas classes normais, salientando que a criança surda pode desenvolver-se, comunicar-se e aprender, desde que tenha suas necessidades linguísticas supridas.

Atualmente, muitos são os estudos sobre a cultura surda e a evolução desse povo guerreiro que luta por igualdade de condições e o que fica claro é que a sociedade começa a despertar para o respeito à diferença cultural do surdo e desmistificar um pouco a surdez vista como deficiência desde a antiguidade.

Portanto, a história das Línguas de Sinais ainda tem muitos capítulos a serem escritos. Seja pelos Surdos, atualmente mais confiantes ou mesmo com a colaboração de ouvintes engajados na causa surda.

E então? Gostou do nosso post de hoje? Gostaria de acrescentar alguma vivência? Compartilhe suas dificuldades e formas de abordar LIBRAS em sala de aula, ou como é realizada a inclusão em sua escola.

Compartilhe essa ideia e passe em diante essas importantes informações, pois a leitura é essencial para o aprendizado.

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Referências bibliográficas

 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio Século XXI. Rio de Janeiro Nova Fronteira, 1999.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio Século XXI. Rio de Janeiro Nova Fronteira, 1999.
http://www.administradores.com.br/artigos/negocios/a-importancia-da-lingua-de-sinais-na-escola-regular/28123/
MARCHESI, A. e MARTIN, E. Da terminologia do distúrbio às necessidades educacionais especiais. In COLL, Cezar; PALACIOS, Jesus; MARCHESI, Alvaro (orgs). Desenvolvimento psicológico e educação: necessidades educativas especiais e aprendizado escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995
QUADROS, Ronice Muller, SHIMIEDT, Magali L.P. Ideias para ensinar português para alunos surdos. Brasília: MEC, SEESP, 2006.
REILY, Lúcia. Escola Inclusiva: linguagem e mediação. Campinas, SP: Papirus, 2004.

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